Biblioteca da Escola Básica de Arões - Santa Cristina
Agrupamento de Escolas de Fafe

17 março 2010

Clube Contadores de Histórias

Um Narciso Amarelo
Morris Kaplan vive num pequeno apartamento por cima de um restaurante muito frequentado. Todas as noites, os sons abafados de mesas a serem postas, de música a tocar, de pessoas a falar e a rir fazem-lhe companhia enquanto prepara e come o seu jantar e enquanto lê o jornal da tarde. Morris adormece com frequência na sua poltrona, junto à janela, com o jornal estendido sobre os joelhos, como se fosse um cobertor. Dorme lá toda a noite, ainda de roupão e chinelos. De manhã, acorda cedo, mesmo antes de entregarem o leite e os legumes no restaurante. Veste-se com cuidado e come um pequeno-almoço de torradas, geleia e chá, que toma num copo. Depois sai, liga a carrinha e começa a longa viagem até ao mercado das flores. Hoje, Morris caminha devagar por entre os enormes recipientes cheios de íris, margaridas, cravos, rosas e lírios. Inspira o ar cheio de fragrâncias. Escolhe um cravo vermelho numa das tendas. Passa a mão devagar pelas pétalas, examina o caule e afasta-se. Morris tem por hábito escolher apenas as flores mais frescas e bonitas para a sua loja. Olha em volta. Os baldes, as tendas e as paredes são cinzentos e apagados. A maioria das pessoas está vestida com fatos escuros ou tem aventais. Só as flores emprestam algum colorido ao mercado. Morris pensa num tempo distante, quando tudo à sua volta era escuro e triste. Numa manhã de Primavera, viu uma flor de um amarelo vivo a crescer num lugar estranho. A flor deu--lhe esperança e coragem. Morris acredita que essa flor lhe salvou a vida. Enxuga uma lágrima e dirige-se a outra tenda, que tem baldes de rosas. Escolhe uma rosa e cheira-a. Depois sacode-a com gentileza. Uma hora depois, a carrinha está cheia de flores. Morris regressa à loja e leva-as para dentro. Ainda é muito cedo. São poucas as pessoas a passar diante da loja. Morris rasga um pedaço de um rolo de papel de embrulho e forra a sua mesa com ele. Coloca uns raminhos de gipsófila sobre o papel, seguidos de cravos brancos e vermelhos. Embrulha as flores e coloca o arranjo num recipiente. Rasga então um novo pedaço de papel. Quando o recipiente está cheio, Morris coloca no frigorífico com porta de vidro os arranjos que acaba de fazer, juntamente com o resto das flores que comprou no mercado. Lá fora, há mais pessoas a passarem diante da loja. As crianças vão a caminho da escola e Morris põe-se à porta a vê-las. ─ Sr. Kaplan! ─ chamam um rapaz e uma rapariga. ─ Bom dia! Bom dia, Sr. Kaplan! Morris acena às crianças, que vêm ter com ele. ─ Hoje estamos atrasados. Não podemos parar para conversar. Voltamos mais tarde, no caminho de regresso a casa. Morris sorri. ─ Bem sei. Hoje é sexta. Até logo. Morris vê-as afastarem-se. Quando deixa de vê-las, entra na loja. Logo entra uma cliente. ─ Queria um ramo bonito para o meu marido. Faz anos hoje. Morris abre a porta do frigorífico e mostra-lhe os arranjos que fez. Também lhe mostra os baldes de rosas, cravos e crisântemos. ─ Levo doze cravos ─ diz a mulher. ─ Será que pode juntar brancos e vermelhos? Enquanto Morris arranja as flores, a cliente olha em redor para os muitos vasos e plantas da loja. O florista mistura os cravos: seis vermelhos, seis brancos, e seis cor-de-rosa. Rasga uma folha de papel de embrulho e adiciona alguma gipsófila. A mulher exclama: ─ Que bonito! Mas eu só queria uma dúzia de flores! ─ As flores brancas e vermelhas são um presente seu. As cor-de-rosa são o meu presente para o seu marido. Ao início da tarde, as crianças começam a voltar da escola. A rapariga e o rapaz que cumprimentaram Morris de manhã entram na loja. ─ Olá, Sr. Kaplan ─ saúda a menina. ─ Olá, Ilana. Olá, Jonathan. Ilana conta: ─ Hoje tivemos teste a Matemática. Era sobre fracções. Foi difícil. E também tivemos um ditado. Mas isso foi fácil. Tira uma bolsinha da mochila. ─ Precisamos de algumas flores. Só nos sobraram dois dólares das mesadas. Podia vender--nos algumas flores velhas? São só para hoje e amanhã. Morris diz, a sorrir: ─ Eu sei. Têm de estar bonitas para o Sabbath. ─ Shabbat ─ corrige Ilana. ─ Shabbat ─ repete Morris. Abre o frigorífico e tira um dos arranjos que fez de manhã. Coloca-o sobre a mesa e rasga o papel de embrulho. Volta ao frigorífico para ir buscar alguns cravos vermelhos, cor-de-rosa e brancos, aos quais adiciona alguns crisântemos. Embrulha o arranjo em papel novo. Depois entrega-o a Ilana. ─ São muitas flores por dois dólares ─ comenta esta, enquanto dá o dinheiro a Morris. Morris sorri: ─ Quando se compram flores velhas, leva-se maior quantidade. É Dezembro e a noite cai cedo. Morris fica na loja até estar bem escuro. Antes de sair, verifica as flores que sobraram. Ainda há muitas para o dia seguinte. Ainda bem. Ao sábado faz-se muito negócio. Guia de volta a casa. Vive perto da loja e podia ir a pé, mas gosta de ter a carrinha com ele, para o caso de necessitar dela. Nos seus quase quarenta anos de vida naquele apartamento e naquela loja, nunca teve de ir a correr a lado algum. No entanto, gosta de ter a carrinha por perto. A neve cai durante toda a noite de domingo. Segunda de manhã, a caminho da loja, Morris ouve as notícias sobre o estado do tempo, sobre as condições de circulação nas estradas e sobre o encerramento de algumas escolas. A escola de Ilana e de Jonathan está aberta. Morris fica contente. Tem saudades deles. Uma vez na loja, faz mais arranjos de flores e depois vai até à porta, a tempo de ver as crianças irem para a escola. No dia seguinte, de tarde, Jonathan e Ilana vêm à loja. ─ Gostávamos de comprar algumas flores ─ diz Ilana. ─ Mas hoje não é terça? ─ estranha Morris. ─ É. ─ Mas vocês compram sempre flores para o Sabbath. O Sabbath só começa sexta à noite. ─ Bem sei ─ sorri Ilana ─ mas hoje é a primeira noite do Hanukkah. Morris abre a porta do frigorífico: ─ Escolham o que quiserem. ─ Só temos cinco dólares ─ avisa Ilana. ─ Escolham o que quiserem. Quando tiverem escolhido cinco dólares de flores, mando--vos parar. Os irmãos escolheram flores suficientes para um grande ramo. Morris embrulhou-as e deu-as a Ilana. ─ Não celebra o Hanukkah? ─ perguntou Jonathan. ─ Não. ─ Celebra o Natal? ─ Não ─ respondeu Morris, suavemente. ─ Não celebro nenhum deles. Quando era rapazinho e vivia na Polónia, celebrava o Hanukkah. Mas isso foi há muitos anos. Depois das crianças saírem da loja, Morris senta-se à mesa e pensa nos seus Hanukkah na Polónia. Foi há muito tempo que andou na escola, que estudou o Talmud e os outros livros sagrados. Lembra-se de ajudar o pai na alfaiataria, de acender velas no Hanukkah, e de receber algumas moedas como prenda. Pensa nos seus pais, no seu irmão, nas suas duas irmãs ─ e no que lhes aconteceu. Na tarde seguinte, os irmãos vêm de novo à loja. ─ Não pode ser! ─ exclama Morris. ─ Compraram tantas flores ontem que não podem precisar de mais já hoje. Não murcharam, pois não? Ilana respondeu: ─ De modo algum. As flores estão óptimas. São muito bonitas. Mas a Mamã disse que tínhamos de o convidar para nossa casa hoje à noite. Janta connosco e acendemos juntos as velas do Hanukkah. ─ Não posso. Tenho de ficar na loja. ─ A Mamã disse que podia vir depois de fechar. Morris abana a cabeça. ─ Mas a essa hora já será tarde demais. Só fecho às oito. ─ Não faz mal. Nós esperamos sempre pelo Papá, que só chega depois das oito. Antes de Morris retorquir de novo, Ilana escreve a morada num papel e diz-lhe: ─ Esperaremos por si, também. Depois das crianças saírem, Morris olha em volta. Quer levar-lhes um presente, mas a família já tem flores. Pega numa taça de cerâmica da prateleira e coloca-a na mesa. É uma taça muito bonita. Olha para ela longamente. Depois abana a cabeça. ─ Somos parecidos. Estamos vazios. Tenho de arranjar uma bela planta para te encher. Põe um vaso de hera dentro da taça. Amarra uma fita azul à planta. Começa a escrever um cartão Caros Sr. e Sra.… Mas dá-se conta de que não sabe o nome de família das crianças. Pega num outro cartão e escreve Obrigado por me terem convidado para jantar. Morris Kaplan. Nessa noite, fecha a loja mais cedo. Vai para casa, barbeia-se e muda de camisa. Pega na taça com a hera e conduz até à morada indicada no pedaço de papel. Ilana e Jonathan moram no apartamento 2C. O nome escrito na porta é Becker. Morris bate à porta. ─ Entre, entre ─ convida a Sra. Becker. ─ É o Sr. Kaplan, não é? Morris entrega-lhe a taça com a hera e depois olha em redor. Há flores por todo o lado. ─ Deu tantas às crianças que não podíamos pô-las todas numa jarra. Ilana e Jonathan estão junto da janela. Jonathan segura uma caixa de fósforos multicores e entrega-os, um a um, a Ilana. ─ Hoje quero que os meus sejam azuis ─ e dá três velas azuis a Ilana. Esta põe-nas no candelabro (menorah) de Jonathan: duas à direita e uma no centro, um pouco mais elevado do que os braços laterais. ─ Que cor quer? ─ pergunta Jonathan a Morris. ─ Vou só ficar a olhar ─ responde o velho florista. ─ Temos um candelabro só para si ─ informa Jonathan. ─ Obrigado, mas fico só a ver ─ declinou Morris. Quando Ilana e Jonathan estão a acabar de preparar os candelabros, o pai chega. Cumprimenta Morris e depois todos se acercam da janela. O Sr. Becker reza as orações e acende as suas velas. Depois é a vez da Sra. Becker, de Ilana e de Jonathan. Cantam juntos Ha-Nerut Hallalu (Estas Velas) e Ma’oz Zur (Rochedo dos Tempos). Enquanto as velas ardem, jogam um jogo de dados. Cada um põe uma passa coberta de chocolate no meio da mesa e deita os dados à vez, para ver a quem toca o doce. Quando Jonathan não está a lançar, está a comer. ─ Vamos jantar ─ sugere a Sra. Becker ─ antes que Jonathan coma todas as passas do jogo. Ao jantar, Morris não pára de falar de flores. A sua favorita é o jacinto. ─ Encho uma taça com seixos e coloco um bolbo de jacinto em cima. Mantenho os seixos húmidos. Quando o jacinto floresce, delicio-me com a sua cor, beleza e cheiro. ─ Teve sempre um interesse assim tão grande por flores? ─ pergunta a Sra. Becker. Morris olha para o prato e responde: ─ Não. Quando era novo, não havia flores à nossa mesa. Os meus pais estavam demasiado ocupados a pensar na vida. Éramos muito pobres. Ergue a cabeça e continua: ─ Queria ser alfaiate, como o meu pai. Ele tinha umas mãos mágicas. Conseguia pegar num pedaço insípido de tecido e fazer dele um fato digno de um casamento. Mas veio a guerra e não pude pensar mais em tecidos ou fatos. ─ Serviu no exército? ─ Não. ─ Não viu soldados a lutarem? ─ Não. ─ Jonathan, não faças tantas perguntas ─ pediu a mãe. Enquanto as crianças falam sobre a escola, Morris pensa nos Hanukkah que celebrou há muitos anos atrás. Depois da sobremesa, Morris agradece a hospitalidade e sai. Uma vez em casa, vai ao armário e tira de lá uma caixa velha. Dentro desta estão um copo de metal, uma camisa rasgada, um chapéu de criança e um velho candelabro. Morris segura-o nas mãos e chora. No dia seguinte, leva o candelabro com ele para a loja. Limpa-o e põe-no à janela. Olha-o com frequência durante o dia. Nessa mesma noite, depois de fechar a loja, coloca o candelabro no assento dianteiro da carrinha. Enquanto guia, lembra-se da última vez que o usou. A irmã ajudara-o. Foi antes de os nazis terem vindo à sua aldeia e de o terem levado, juntamente com a família, para um gueto. Mais tarde foram deportados para Auschwitz. Morris lembra-se dos horrores daquele lugar. Lembra-se de que foi separado da família. Uma manhã, quando já tinha perdido toda e qualquer esperança de sobreviver, viu uma pequena flor amarela, um narciso, que tinha desabrochado mesmo à porta do seu barracão. A chuva, que Morris amaldiçoara por causa da lama que trazia, tinha alimentado a flor, que agora procurava o sol. Se o narciso consegue sobreviver aqui, talvez eu também consiga, pensou Morris. Morris sabe que foi a sorte, mais do que qualquer outra coisa, que o salvou. Mas sente que aquela flor o salvou também. Pára num semáforo vermelho e dá-se conta de que não vai na direcção de sua casa. Está à porta da casa dos Becker. Estaciona a carrinha, pega no candelabro e entra. Fica um pouco à porta do apartamento 2C antes de tocar à campainha. Olha para o candelabro e bate à porta. ─ Sr. Kaplan! Entre! ─ convida a Sra. Becker. ─ Este é o candelabro que eu usava quando era novo ─ diz-lhe Morris. Senta-se à mesa e fala-lhes da família que perdeu e do narciso amarelo. ─ Depois da guerra não tinha para onde ir, por isso fui para casa. Estava lá outra família a viver. Estavam a usar a nossa mobília, as nossas panelas e pratos, e vestiam as nossas roupas. Não ficaram felizes por me ver, mas deram-me uma pequena caixa com as coisas que não queriam. O nosso candelabro estava nessa caixa. Há lágrimas nos olhos de Morris. ─ Pensei que ia encontrar alguns velhos amigos na aldeia, mas não encontrei. Não tinha ninguém. A Sra. Becker segura as mãos de Morris e diz-lhe: ─ Agora tem-nos a nós. Morris põe o seu candelabro à janela. Jonathan dá a Ilana quatro velas. Esta põe-nas no candelabro. Os Becker ouvem com atenção enquanto Morris diz as orações, e observam-no a acender as velas para celebrar o Hanukkah.
David A. Adler One Yellow Daffodil Orlando, Voyager Books, 1999

Exposição na BE/CRE

10 março 2010

Clube Contadores de Histórias

O pão dos outros
Remi está a conversar com a avó. Gosta de a ouvir falar dos seus tempos de menina. – Na minha aldeia, na Provença, pelo Ano Novo, no primeiro dia de Janeiro, toda a gente oferecia uma prenda a toda a gente. Vê lá se és capaz de adivinhar o que seria. Remi lança palpites: – Comprar prendas para a aldeia inteira… É preciso muito dinheiro. Quer dizer que as pessoas eram ricas? A avó riu-se: – Oh, não! Naquele tempo, tinha-se muito pouco dinheiro e ninguém na aldeia comprava prendas. Nem sequer havia lojas como há hoje. – Então faziam as prendas? – Não propriamente! – Então como é que faziam? – Era muito simples. Ora ouve… Antigamente, cada família fazia o seu pão. Não havia água corrente nas casas. Então íamos buscá-la à fonte, no largo da aldeia. E, no dia um de Janeiro, de manhã muito cedo, a primeira pessoa que saía de casa, colocava um pão fresco no bordo da fonte, enquanto enchia a bilha de água. Quem chegava a seguir pegava no pão e punha outro no mesmo lugar para a pessoa seguinte, e assim por diante… Desta forma, em todas as casas, se comia um pão fresco oferecido por outra pessoa. Nem sempre se sabia por quem, mas garanto-te que o pão nos parecia muito bom porque era como se fosse um presente de amizade. As pessoas que estavam zangadas pensavam que talvez estivessem a comer o pão do seu inimigo e isso era uma espécie de reconciliação… Durante alguns dias, esta história andou a martelar na cabeça de Remi. Uma manhã, teve uma ideia. Meteu no bolso uma fatia de pão de lavrador. É o pão que se come na casa de Remi. E na escola, um pouco antes do recreio, Remi pousou o pão bem à vista, em cima da carteira de Filipe, o seu vizinho. Filipe está sempre com fome e repete sem cessar a Remi: – Oh! Que fome, que fome eu tenho! Bem comia agora qualquer coisa! Quando Filipe viu a fatia de pão, que rica surpresa! Sabia muito bem quem lha tinha dado, mas fingiu que não sabia. No recreio, todo contente, comeu o pão sem dizer nada a Remi, mas… No dia seguinte, sabem o que é que Remi encontrou em cima da carteira, mesmo antes do recreio? … Um pedaço de cacete! Um grande pedaço bem estaladiço! Um verdadeiro regalo! Filipe ria-se. E assim continuaram a dar um ao outro presentes de pão. Na aula, a Carlota e a Sílvia estão sentadas logo atrás de Filipe e de Remi. Rapidamente souberam da história do pão e quiseram também participar nas surpresas. No dia seguinte, Sílvia levou uma fatia de cacetinhoe Carlota uma fatia de pão centeio. Outras crianças quiseram participar nas prendas de pão. Apareceu pão grosseiro, pão de noz, pão de sêmea, pão sem côdea, pão caseiro, pão fino, pão russo, negro e um pouco ácido, que Vladimir levou, pedaços de pão árabe, que a mãe de Ahmed cozera no forno, e ainda muitos outros tipos de pão. Desta forma, quase toda a turma se pôs a trocar pedaços de pão durante o recreio. A professora apercebeu-se das trocas e perguntou: – Mas o que é que vocês estão aí a fazer? Carlota e Remi contaram-lhe toda a história do pão dos outros. E logo após o recreio, o que é que estava em cima da secretária da professora? …um pedaço de pão! Toda a classe tinha os olhos postos na professora. Ela sorriu e comeu o pão. E, no domingo seguinte, quando Remi viu a avó, era ele que tinha uma história para lhe contar: – Sabes, avó? Olha, na minha turma…
Michèle Lochak Le pain des autres Paris, Flammarion, 1980

04 março 2010

Exposição - Língua Portuguesa

Trabalho inspirado no livro "A Lua de Joana"

Realizado pelos alunos do 8ºC

Ali, o burrinho de Sidi Mohammed

Ainda há pouco a enorme duna fulgia de vermelho, mas agora, com o sol cada vez mais a pique, adquirira um brilho amarelo dourado. Ali, o burro, mal repara que as dunas haviam mudado de cor. Só dá conta de que o sol está a incidir-lhe no dorso, cada vez mais quente, demasiado até! Por volta do meio-dia, tornar-se-ia insuportável. Ali detesta a duna. Detesta o sol que nela incide e aumenta a luz e o calor. Só quando descansa à sombra da palmeira, durante a pausa do meio-dia, é que Ali gosta do sol. Deita-se numa ilha fresca que paira numa concha de luz amarela do oásis. Vê como no começo do ano a cevada se ergue amarela dourada entre as palmeiras e, no Verão, espreita as tâmaras na copa das palmeiras. No entanto, os intervalos de descanso numa ilha fresca acabam demasiado depressa. Ali põe um casco à frente do outro. As suas pegadas são imediatamente preenchidas até meio pela areia que desliza. Às costas leva pendurados, à direita e à esquerda, dois cestos, dos quais vão escorrendo duas tiras amarelas douradas, areia que o vento arrastara até às plantas do oásis. Ali carrega essa areia de volta para o outro lado da crista da duna. Atrás de Ali segue Sidi Mohammed. Sidi Mohammed não leva nenhum cesto mas sim um pau, em parte para se apoiar e também para espicaçar Ali, quando ele se mostra cansado. Como Ali detesta a duna, cansa-se com mais frequência do que seria de esperar e Mohammed bate-lhe com o pau no dorso. Por volta do meio-dia, contudo, Ali sente-se realmente cansado. As pegadas parcialmente cobertas de areia dançam-lhe à frente dos olhos, e ele detesta não só a areia e o sol mas também Sidi Mohammed, que não lhe concede ainda descanso algum. “Espera”, pensa Ali. “Espera! Qualquer dia fujo! Depois, carregas tu a areia às costas e bates no teu próprio traseiro quando andares devagar.” Ali já tem três anos e é um burro adulto, mas ainda não viu nada do mundo, para além das palmeiras de Sidi Mohammed e, por cima delas, o céu. Durante o intervalo do meio-dia, Ali mal olha para as tâmaras maduras. Perdido nos seus pensamentos, vai arrancando umas ervas e esfrega as costas contra uma palmeira. Isto é exactamente o mesmo que o coçar da cabeça de Sidi Mohammed. “Esta noite!”, pensa Ali. “Esta noite vou fugir daqui!” Pelo lusco-fusco, Sidi Mohammed senta-se encostado à cabana. Assim que o sol desaparecer atrás da orla da duna, vai ficar mais fresco. Ali anda a pastar debaixo das palmeiras. Mal escurece, o dono dá um estalido com a língua. Ali acorre obedientemente e desaparece no interior do tabique. O estábulo de Ali, feito de tábuas, é ao lado da cabana de Sidi Mohammed, e a porta abre para fora. Ali espera até que tudo esteja silencioso, depois levanta-se e força a cabeça pela frincha da porta. Sidi Mohammed tinha deixado a caixa de pé contra a porta. Esta cai no chão de areia. Cheio de medo, Ali espera uns momentos antes de meter o corpo pela frincha da porta. Nada, está tudo calmo! As estrelas brilham tão intensamente que Ali consegue, sem dificuldade, ver as pegadas na areia. Não sabia que, de noite, as dunas eram tão frias. O ar também é frio. Ali está cheio de frio mas, sem os cestos, faz a subida rapidamente. Na crista da duna volta-se mais uma vez. Ao fundo da duna, vê as folhas das palmeiras pretas e um ângulo da cabana de Sidi Mohammed. À frente dele, estende-se o deserto, o mundo onde Sidi Mohammed não manda. E agora, para onde ir? Ali quer seguir em frente, mas em que direcção? Quando, ao fim de muito tempo, a orla do céu começa a clarear e depois o sol se levanta rapidamente, Ali ainda está a caminhar sem ter visto uma palmeira. Não consegue deixar de pensar no poço de água do oásis. Mas a água, agora, está muito longe. Terá seguido na direcção errada? Talvez os oásis, as palmeiras, os pastos dos camelos e os poços de água sejam na direcção do pôr do sol. Será melhor voltar para trás? Ali não sabia que também se fica cansado e triste sem cestos de areia. As dunas sucedem-se umas às outras, todas iguais, como se Sidi Mohammed estivesse a rir-se dele. De repente, Ali dá de caras com um animal sentado, imóvel, na areia. Tem uma cauda espessa, orelhas grandes e pêlo amarelo claro. — Quem és tu? — pergunta Ali. — Eu sou Ali, o burro de Sidi Mohammed. O desconhecido olha-o de olhos arregalados de espanto, olhos espertos, e responde: — Que és um burro, eu sei. Mas és um burro palerma, porque não sabes que eu sou um feneco, uma raposa do deserto. Ali fica zangado mas, como há horas que não encontra nenhum ser vivo, não deixa transparecer nada. Talvez o feneco possa ajudá-lo! — O que estás aqui a fazer? — pergunta Ali. — Ando por aqui a vaguear. — Também estás à procura de um novo dono? — Eu não tenho dono, sou livre! — E quem te dá água e comida? Não vejo por aqui uma única folha de erva! — És mais burro do que o que eu pensava! Não sabes que todos os animais livres têm de tratar de si? Sou eu que caço as minhas presas, e eu mesmo procuro as nascentes de água. Dá-te por contente por eu não apreciar carne de burro! — Eu não caço. Prefiro pasto de camelo! — explica Ali dignamente. — Erva é o melhor que podes imaginar! Água, dá-ma o novo dono que vou procurar. — Aqui não há dono nenhum! — disse a raposa. — Nem erva nem água. Só areia! — Onde é que há água? — Isso depende. Se seguires em direcção ao nascer do sol, tens ainda um dia e uma noite pela frente. Se fores em direcção ao pôr do sol, tens meio dia e chegas a um oásis com erva suculenta e água doce. Era o melhor para ti. — Para aí não quero ir! — atalha Ali rapidamente. — Até hoje andei lá a carregar areia às costas até à crista da duna! Já estou farto, quero ser livre como tu! — Livre? Então também tens de ser tão rápido como eu e igualmente corajoso. Não podes ter medo da sede nem da fome, o calor e o frio não podem incomodar-te. Tens de amar o vento e a areia, tens de evitar os oásis para não seres apanhado pelos homens. E, além disso, precisas de um pêlo diferente. Os animais livres têm um pêlo amarelo cor-de-areia como sinal de que amam o deserto, mas tu tens um pêlo parecido com pó de argila. Ali fica abatido. Não tinha imaginado que a vida em liberdade fosse tão difícil. — Queres ser o meu dono — perguntou após uma longa pausa. — Queres mostrar-me como posso tornar-me livre? — Não quero contrariar-te — respondeu a raposa — mas acho que foste criado para o oásis. Quem nasceu para o deserto sabe sempre o que quer. Tu tens muitas perguntas. No teu lugar, eu regressaria para Sidi Mohammed. Tornar-me-ia útil, para que ele gostasse de morar comigo no oásis dele. — Eu sou muito útil! — explicou Ali com orgulho. — Sem mim, o oásis há muito que estaria enterrado na areia e não haveria mais tâmaras doces. Sidi Mohammed vai ficar triste por eu ter fugido. — E que mais queres? Não é belo transformar a tristeza em alegria? Volta para trás, eu acompanho-te. Sinto simpatia por ti, embora sejas um burrito. E foi assim que o burro e a raposa se puseram a caminho do poente, um com o pé leve, o outro com o coração pesado… pois Ali ia a pensar no pau de Sidi Mohammed. Mas como Alá também ama os animais, enviou um sonho a Sidi Mohammed. Este carrega uma jeira de madeira sobre os ombros, de onde pendem, à direita e à esquerda, dois cestos de areia. Devagar, um pé à frente do outro, Sidi avança, ofegante, pela duna acima. O calor do dia é quase tão pesado como a areia que leva às costas. Atrás dele segue Ali. De cada vez que Ali se impacienta, bate com o focinho nas costas de Sidi Mohammed, de tal maneira que o pobre quase cai para a frente. Sidi Mohammed acorda completamente destroçado. Quando, pela manhã, descobre que Ali fugiu, não fica furioso mas triste. Triste consigo mesmo porque, sem a ajuda de Ali, o bonito oásis ficará soterrado na areia. Sidi Mohammed não tem um camelo e, a pé, não pode ir buscar o burro. Só lhe resta esperar que Ali volte de livre vontade. O sol já está a pôr-se quando os dois amigos tão diferentes chegam ao seu destino. — Adeus! — diz a raposa. — Não posso acompanhar-te mais. Estive a pensar em ti. Não é vergonha nenhuma trabalhar no oásis. Quem trabalha é útil e, ao mesmo tempo, valente como os animais livres. Se quiseres, podemos ficar amigos! — Adeus! — diz Ali, a pensar novamente no pau de Sidi Mohammed. A raposa afasta-se. As suas patas calcam a areia como uma fiada de pérolas. Ali inicia a descida até ao fundo do oásis, muito lentamente. Quando chega às palmeiras, já é quase escuro. Sidi Mohammed está sentado, encostado à cabana. Levanta-se de um salto. “O pau!” pensa Ali, muito assustado. “Ele vai buscar o pau à cabana!” mas Sidi Mohammed não vai buscar o pau. Em vez disso, corre ao encontro de Ali e coça-lhe a cabeça atrás das orelhas. — Seu desertor! — diz ele. — Ainda bem que voltaste!Ali, de pé, está muito quieto e sente-se o mais feliz dos burros. E, antes de correr para o poço para finalmente voltar a beber, esfrega a cabeça, agradecido, na túnica de Sidi Mohammed.
Hannelore Bürstmayr Grün wie die Regenzeit Mödling, Verlag St. Gabriel, 1986Tradução e adaptação

Efemérides do mês de Março

Março é o mês de…
  • 8 - Dia Internacional da Mulher
  • 15 – Dia Mundial dos Direitos do Consumidor
  • 19 – Dia do Pai
  • 20 – Dia da Agricultura
  • 21 – Dia Mundial da Floresta (dia da Árvore)
  • 22 – Dia Mundial da Água
  • 23 – Dia Mundial da Meteorologia
  • 24 – Dia Mundial da Tuberculose
  • 26 – Dia do Livro Português
  • 27 – Dia Mundial do Teatro

26 fevereiro 2010

EB1/JI Monte

Os alunos da EB/JI do Monte estiveram, hoje, na sala do prolongamento, a participar na Hora do Conto. A história que ouviram foi o “O Sapo Apaixonado”. No final da história, como actividade decorrente da história, os alunos fizeram diversos desenhos e por sinal, muito criativos.

24 fevereiro 2010

A rapariga e o homem da lua (conto tradicional do povo tchuktchi)

Viveu outrora, entre o povo Tchuktchi, um homem que só tinha uma filha. A filha era a melhor das ajudas que o pai podia ter. Passava o Verão inteiro longe do acampamento, vigiando a manada de renas que o pai possuía. E, quando chegava o Inverno, tinha de levar a manada ainda para mais longe. Só de vez em quando é que ela ia ao acampamento buscar comida Uma noite, quando ela se dirigia ao acampamento no seu trenó puxado por uma rena mais rápida, esta ergueu a cabeça e olhou para o céu. — Olha, olha! — gritou ela. A rapariga olhou e viu o Homem da Lua a descer do céu, num trenó puxado por duas renas. — Onde será que ele vai? E o que irá ele fazer? — perguntou a rapariga. — Ele quer levar-te — respondeu a rena. A rapariga ficou muito assustada. — Que hei-de eu fazer? Ele é bem capaz de me levar consigo! — exclamou ela. Sem dizer uma palavra, a rena começou a escavar com as patas um buraco na neve. — Vamos, esconde-te nesta cova! — disse ela. A rapariga entrou lá para dentro, e a rena começou a pôr de novo a neve por cima. Passado algum tempo a rapariga tinha desaparecido, e só um pequeno monte de neve assinalava o lugar onde ela tinha estado. — Que estranho! — disse o Homem da Lua.— Onde será que ela se meteu? Não sou capaz de a encontrar! O melhor é ir-me embora e voltar mais tarde. Tenho a certeza que então a encontro aqui, e poderei levá-la comigo. Dizendo isto voltou para o trenó, e as renas levaram-no pelos céus fora. Assim que ele desapareceu, a rena tornou a tirar a neve, e a rapariga saiu do buraco. — Vamos depressa para o acampamento! — disse ela.— Vamos antes que o Homem da Lua me veja, e volte cá de novo. Não serei capaz de lhe escapar uma segunda vez. A jovem subiu para o trenó e a rena partiu mais veloz do que o relâmpago. Assim que chegaram ao acampamento, a rapariga correu para a tenda do pai. Mas o pai não estava. Quem a ajudaria agora? A rena disse: — Tens de te esconder porque o Homem da Lua há-de vir atrás de ti. — Mas onde me poderei esconder? — perguntou a rapariga. — Vou transformar-te em qualquer coisa... Numa pedra, por exemplo — disse a rena. — Não, isso não vai dar nada, ele encontra-me na mesma. — Então transformo-te num martelo. — Também não serve. — Numa estaca. — Também não. — Num pêlo da pele. — Não, não. — Então em que te hei-de transformar? Já sei! Transformo-te numa lâmpada! — Está bem. — Então deita-te no chão. A rapariga deitou-se, a rena bateu com a pata no chão e logo ali ela se transformou numa lâmpada que dava uma luz tão intensa - que alumiava toda a tenda. Entretanto o Homem da Lua tinha andado a procurar a rapariga entre as suas renas, e chegava agora ao acampamento. Prendeu as renas a um poste, entrou na tenda e continuou a procurá-la lá dentro. Procurou entre as estacas que suportavam a tenda, examinou todos os objectos e utensílios, meteu as mãos pelo pêlo das peles, procurou debaixo das camas e por toda a parte – mas da rapariga nem rasto. Quanto à lâmpada, nem deu por ela porque esta brilhava com grande intensidade, a sua luz era tão forte como a luz do próprio Homem da Lua. — Que estranho! — disse o Homem da Lua. — Onde poderá ela estar? Tenho de voltar para o céu! Saiu da tenda e foi buscar as renas. Já lhes tinha atrelado o trenó, e estava quase a sentar-se nele quando a rapariga, afastando as peles que estavam à entrada da porta, pôs a cabeça de fora e disse, a rir: — Estou aqui! Estou aqui! O Homem da Lua largou o trenó, e correu para dentro da tenda, mas a rapariga tinha-se de novo transformado na lâmpada. O Homem da Lua começou a procurá-la. Procurou por entre as folhas e os ramos, por entre as peles estendidas no chão... mas da rapariga nem rasto. Que estranho era tudo aquilo! Onde poderia ela estar? Parecia que teria de regressar ao céu sem ela. Mas mal ele tinha saído da tenda, assim que se preparava para entrar no trenó, logo voltou a aparecer o rosto da rapariga entre as peles da entrada: — Estou aqui! Estou aqui! — gritava ela, rindo às gargalhadas. O Homem da Lua correu de novo para a tenda e começou a procurá-la. Procurou durante muito tempo, virou a tenda do avesso, mas da rapariga nem rasto. Estas buscas cansaram-no tanto que ficou muito magro, e muito fraco, mal podendo mexer as pernas ou levantar um braço. Nesta altura a rapariga sentiu que já não havia razão para ter medo dele. Tomou a sua própria forma, saiu da tenda, voltou o Homem da Lua de costas, e atou-lhe as mãos e os pés com uma corda. — Ai! — gemeu o Homem da Lua.— Queres matar-me, eu sei! Pois bem, então mata--me. Eu mereço a morte porque tudo aconteceu por minha culpa, por te querer levar comigo. Mas antes de morrer, cobre-me com peles, e deixa-me aquecer, que estou gelado. A rapariga olhou para ele, admirada. — Gelado?! Tu estás gelado? Tu, que não tens casa, que não tens tenda? Tu pertences ao ar livre, e é aí que deves continuar. Para que precisas das minhas peles? Então o Homem da Lua começou a lamentar-se. E aqui está exactamente o que ele disse à rapariga. — Já que eu não tenho casa, como dizes, e estou condenado a nunca a ter, larga-me e deixa-me voar pelos céus. Juro que o teu povo há-de gostar de me ver, juro que lhes hei-de dar prazer. Liberta-me, e eu servirei de farol ao teu povo, guiando-o através da tundra. Liberta-me, e eu transformarei a noite em dia. Liberta-me, e eu medirei o tempo para o teu povo. Primeiro serei a Lua da Velha Rena, depois a Lua do Nascimento das Crias, depois a Lua das Águas, depois a Lua das Folhas, depois a Lua do Calor, depois a Lua da Mudança, depois a Lua do Amor entre as Renas, depois a Lua do Primeiro Inverno, depois a Lua dos Dias Minguados... — E se eu te libertar e tu recuperares as tuas forças antigas — não virás de novo do céu à terra para me levares contigo? — perguntou a rapariga. — Nunca mais! — gritou o Homem da Lua.— Prometo que tentarei até esquecer o caminho que leva à tua casa. Tu és inteligente demais. Liberta-me, e eu darei luz ao céu e à terra. Então a rapariga libertou o Homem da Lua. Ele levantou-se, e voou pelo céu fora, inundando a terra de luz.
Contos Tradicionais da União Soviética Federação Russa Lisboa, Edições Raduga, 1990

Exposição - Modelos Moleculares

Está a decorrer uma exposição sobre Modelos Moleculares, da disciplina de Ciências Físico-Química, na Biblioteca Escolar. Esta actividade foi realizada pelos alunos do 8ºC.

12 fevereiro 2010

FLORA E O VIOLINO

Esta manhã, Flora chegou à estação do comboio. A grande estação da grande cidade. Ontem, caminhou todo o dia para apanhar o comboio. Viajou toda a noite. Viajou, ou melhor, fugiu, porque há guerra no seu país. Uma explosão assustadora, a casa em fogo, e ninguém para apagar o incêndio que começava. Por isso, Flora enfiou à pressa alguma roupa na mochila, depois pegou no ursinho e não esqueceu a caixa com o violino. E com os pais, fugiu para longe da sua aldeia. Quando descem do comboio, já estão noutro país. As pessoas têm um ar apressado, falam uma língua esquisita. Flora vê que fazem gestos mas não percebe o que dizem. Sente-se perdida… Felizmente umas pessoas muito generosas emprestaram uma casa aos pais de Flora. E na escola do bairro há um lugar para ela, na classe dos mais novos. Vai poder aprender francês, a língua esquisita que ouviu na estação. No primeiro dia, o pai acompanha-a à escola. Assim que a vêem, os meninos começam a fazer troça dela. –– Olha, tem os cabelos cor de laranja! –– E a cara cheia de sinais! –– Não é de cá! De onde é que tu vens? –– Olha os óculos! Eh, tiraste-os à tua avó, ou quê? Todos se riem. Todos, menos Flora. Esta manhã, Flora trouxe o seu violino. Depois das aulas vai à escola de música. Ao verem a caixa, os meninos voltam a troçar dela. –– O que é aquilo? A caixa da metralhadora? –– Não, é o cesto de ir ao mercado. Ela só come peras! –– Cuidado, ela escondeu um crocodilo lá dentro! Todos se riem. Todos, menos Flora. Até fica cada vez mais triste mas ninguém se dá conta. Ninguém, excepto António que, à saída da escola, se abeira dela. –– Vais para casa, Flora? –– Não, vou escola música. –– Fazer o quê? –– pergunta António. –– Tocar violino… –– Queres que vá contigo? Flora sorri e faz que sim com a cabeça. Nesta escola ouve-se música por todo o lado, por detrás de cada porta. António reconhece o som de um piano, de um trompete e de uma flauta. O professor da Flora é muito simpático e deixa António ficar na sala, com a condição de não perturbar. Flora toca bastante bem tanto a solo, como em duo com o professor. António escuta-os sem se mexer. Um dia, na escola, as crianças estavam a fazer um desenho quando, de repente, grandes nuvens escuras cobrem o céu. Nuvens de tempestade, que deixam uma pessoa assustada. Os raios caem de todos os lados, o trovão ruge e estala como um chicote. Zás! Não há luz: foi um trovão que cortou a electricidade. –– Eu vou procurar velas –– diz a professora. –– Fiquem tranquilos. As crianças estão com muito medo. Gritam e escondem-se a chorar debaixo das mesas. Flora bem gostava de as acalmar. Mas como? De repente tem uma ideia, uma ideia muito boa. Muito devagar, tira o violino da caixa, depois o arco… Um… dois… três sons sobem na escuridão da sala de aula e balançam-se suavemente. Dir-se-ia uma canção de embalar. Depois, uma enfiada de notas forma uma dança. Como toca depressa, a Flora! Escolheu fazer o seu violino cantar uma toada do seu país. É alegre, triste, as duas coisas ao mesmo tempo. E graças a ela, todas as crianças esqueceram a trovoada. Que pena! A electricidade voltou… As crianças aplaudem. –– Obrigada, Flora, muito bem! –– diz a professora. E depois acrescenta: –– Para amanhã não há trabalhos de casa. Mas vão todos fazer um bonito desenho ou um poema para agradecer à Flora. –– Yupiii! –– gritam os meninos. Agora todos querem ser amigos de Flora. Mas ela só tem um amigo: António. Ele acompanha-a todas as semanas à aula de música. O professor de música deu a António uma linda flauta. –– Experimenta tocar um bocadinho! António experimentou e gostou muito do som da flauta. A partir de então, passou a tocar todos os dias. Muito rapidamente, começou a tocar peças com Flora. Violino e flauta, flauta e violino, é muito divertido e tem uma certa magia… –– E se vocês fizessem um pequeno concerto na escola? – propõe o professor de música. –– Boa ideia! –– exclama Flora. –– E depois vamos ao hospital tocar para os meninos doentes. No meu país faz-se isso muitas vezes. A música ajuda a curar e a esquecer as preocupações. –– Que peças queres tocar, António? –– Hum… As mais fáceis? Oh, e daí não, as difíceis também! Vou trabalhar todos os dias e fazer muitos progressos! Os dois preparam então dez peças e, com a ajuda do professor, desenharam um cartaz muito bonito. Toda a escola vem ouvi-los. É um sucesso, um concerto magnífico! À saída, todos os meninos estão decididos a aprender a tocar um instrumento. E depois? Ora bem, Flora e António continuaram a tocar juntos. PARA PRAZER DELES! Viva a música!
Gerda Muller Quand Florica prend son violon Paris, l´école des loisirs, 2001 (Texto adaptado)